Bolsonaro se cerca de militares

Atua para instrumentalizá-los

Aposta no caos, e não no diálogo

 

Opresidente Jair Bolsonaro parece ter passado ao ataque ao endossar, mesmo sem admitir, um movimento de rua no próximo dia 15 de março, organizado em protesto contra o Congresso e a Justiça –as duas instituições republicanas e democráticas que, a seu ver, têm se tornado um empecilho para o governo.

Em sua live na 5ª feira (27.fev.2020), o presidente tentou negar o óbvio. Usou a camisa do time do Fortaleza, gesto de paz por conta da greve dos PMs em Sobral, que custou 2 tiros no peito ao senador tratorista Cid Gomes. Negou estar insuflando a manifestação do dia 15, atribuindo, como sempre, tudo à imprensa. “Não existe isso aí”, disse. Porém, durante toda a hora em que procurou justificar-se, não usou sequer um segundo para defender o fim da manifestação e cortar o clima de animosidade que, todo o tempo, ele vai acirrando.

No ataque, o presidente terrorista camufla o fato de que, na realidade, está na defesa. Encontra-se na mesma posição de Lula e Dilma, que tentaram mobilizar a população para proteger-se das investigações da Lava Jato.

Bolsonaro já parece Dilma, no seu 2º termo. Por mais trabalhoso que seja o Congresso, ou tinhosos os integrantes do STF, não há, realmente, um empecilho político e institucional ao governo. Há, muito mais, o efeito bumerangue das coisas que o presidente diz e faz. E, claro, o fato de que a economia não anda como todos aguardavam.

Sua situação deteriora-se rapidamente. Ele sabe disso. E usa o mesmo recurso do PT para resistir. Entrincheirou-se no Palácio, não por acaso cercando-se da companhia do maior número possível de militares, cortejando-os para um golpe. O general Augusto Heleno, chefe do GSI, parece já ter comprado a ideia, que resumiu num conhecido palavrão (“Foda-se“).

O pedido de apoio nas ruas para um movimento com cores militares é um recurso desesperado. As investigações sobre as contas do gabinete de Flavio Bolsonaro e a proximidade da família com os negócios do Capitão Adriano, morto recentemente pela polícia, num desses episódios que dão a marca da violência à política brasileira, colocaram o presidente e seus filhos no centro de um caso do qual não poderiam sequer estar por perto.

Mesmo que as investigações estejam incompletas, ter defendido como “herói” um ex-policial homicida, chefe de máfia e acusado de matar a vereadora Marielle Franco, já exorciza de Bolsonaro a imagem de combatente da corrupção e do crime em geral com a qual se elegeu.

Na sorte, o presidente deu azar. Não imaginava que seria eleito, atraindo tanta atenção para seus amigos e negócios. São os problemas do sucesso.

Apesar disso tudo, o que decide mesmo no Brasil a permanência de um presidente é sua eficiência na economia. E a promessa de tirar o país da crise vai se esvaziando. A economia demora a reagir, ou reage vagarosamente, em boa parte pela insegurança que o próprio Bolsonaro cria, assustando os investidores.

Divorciado do Congresso, Bolsonaro não conseguiu ainda sequer 1% das adesões necessárias para criar seu próprio partido. Quer testar na rua o que lhe sobrou de apoio, porque na política institucional conseguiu colocar-se na pior posição possível: voltou a ser a minoria esmagadora, da qual já fazia parte como deputado.

No campo institucional, resta ao presidente o amparo de um pequeno círculo de militares. Ele tenta escudar-se com o prestígio das Forças Armadas, que contam com a confiança de cerca de 80% da população, de acordo com uma pesquisa divulgada no ano passado pela Fondapol, instituto de estudos sobre a democracia baseado na França.

Ocorre que as Forças Armadas somente gozam desse prestígio por terem se mantido afastadas da política, desde o fim da ditadura militar. Nas vezes em que foram chamados a atuar, como no pedido de Dilma para reprimir os movimentos de rua que pediam sua cabeça, os militares se mantiveram a favor da liberdade de expressão, contra a repressão e na defesa das instituições democráticas, incluindo a Justiça.

Esse é o tipo de manutenção da ordem que tem dado aos militares o seu atual prestígio. O que Bolsonaro pede deles agora, como fez Dilma, é que deem um tiro no próprio pé. Provavelmente, terá deles a mesma resposta: não.

Os generais que aceitaram emprestar a imagem positiva da corporação ao governo, provavelmente pela mais pura boa fé, agora a colocam em risco. Índices de popularidade, como todos sabem, podem cair do dia para a noite. Basta fazer a coisa errada, ou, no caso dos militares, sair do seu papel.

Não são apenas as Forças Armadas que o presidente procura instrumentalizar politicamente. Além dos militares, ele e seus filhos incentivaram a rebelião dos policiais militares, com mensagens diretas no Twitter. O episódio em que o senador Cid Gomes saiu com 2 tiros no peito em Sobral, no Ceará, mostra bem como a política faz uso desse tipo de situação –e suas consequências.

Fica claro que Bolsonaro atua para disparar a violência latente na sociedade brasileira, desgastada pela crise econômica e a revolta contra a corrupção, usando para isso as forças criadas para a manutenção da própria ordem.

Ao sugerir a ingovernabilidade, como fez Jânio Quadros antes de renunciar em 1961, ele inventa um suposto choque do Executivo com o Legislativo, ou um bloqueio às reformas, para esconder o simples fato de que não tem respaldo político e procura escapar às investigações que recaem sobre a família no Rio de Janeiro.

A rigor, não é de espantar. Bolsonaro sempre se colocou ao lado de policiais justiceiros, mesmo quando estes passaram a tomar para si os negócios do crime, e nunca se deu bem no diálogo com o Congresso –nem mesmo durante os 28 anos em que atuou como congressista. Mostra agora que também não consegue conviver bem com a Justiça. A mesma Justiça com a qual se alinhava, quando se tratava de investigar Lula e o PT.

O Bolsonaro presidente é o mesmo que o Bolsonaro deputado e também o militar. Assim como no episódio em que foi convidado a sair da ativa nas Forças Armadas, após liderar um movimento pelo aumento do soldo cujos planos incluíam explodir bombas em quartéis, ele prefere apostar no caos, em vez do diálogo.

Por ironia, coloca de novo no colo dos militares a tarefa de lidar com esse filho problemático, criado dentro da própria corporação.

Quando um político sacrifica uma Nação para defesa de seus interesses pessoais, por trás dos quais pode existir um crime, como já aconteceu com Lula, há 2 motivos para alarme da sociedade e a tomada de providências das instituições. O 1º é impedir que esse agente da discórdia corrompa os processos de investigação. O 2º é impedir que destrua as as próprias instituições e, com elas, a Nação.